Tosse de Cachorro

O sangue latino do Galeano

Em 2009, muito antes de pensar em sair de casa, ainda duvidando sobre a nova graduação que eu recém havia começado, encontrei As Veias Abertas da América Latina, recomendação de um amigo-professor que tomei como exemplo em minha carreira universitária. E foi aí que nasceu um interesse, platônico mesmo – mais pelo mundo que pelo escritor – que me fez riscar da lista de planos qualquer lugar que não estivesse na parte sul da América.

E veio então O Livro dos Abraços, a mudança pro Uruguai, a constatação de que por lá o autor não é a mesma unanimidade que é por aqui, o encontro inesperado numa esquina de Montevidéu (e a surpresa no olhar dos dois, porque eu não consegui falar ou fazer nada naquele instante), o Futebol ao Sol e à Sombra e Os Filhos dos Dias.

Pra mim, nunca foi o escritor ícone, o modelo a seguir ou o suprassumo da literatura latino-americana. Mas fomentou e esteve presente nas decisões e paixões que marcaram minha história nos últimos seis anos.

E agora, como estar em Montevidéu sem imaginar outro encontro casual em alguma esquina do Parque Rodó?

Eduardo Galeano (1940 – 2015)

Aqui o link para uma entrevista, fundamental.

Escritores corredores

Lembro que senti alguma estranheza ao ler as primeiras páginas de O Estrangeiro, do Camus. Num primeiro momento, desconfiei de tamanha agilidade no desenvolvimento das ideias e da falta de detalhes que me ajudassem a compor o quadro narrativo. Demorei um pouco pra me acostumar ao seu estilo literário conciso, direto. “Mas esse é o grande Camus de quem todos falam?”. Procurava algum indício de genialidade, mas a narrativa corria demasiado rápido, e as palavras era muito literais, e os parágrafos eram muito curtos…

É estranho dar de cara com esse tipo de escrita quando seus autores favoritos são conhecidos por perder-se em pensamentos e fluxos. Senti saudades dos parágrafos intermináveis de Virginia Woolf, da subjetividade de Dostoievski, da ambiguidade estrutural de Pirandello. Não encontrei em minha estante nenhum outro livro que pelo menos se assemelhasse ao praticado por Camus. Nem os bons contemporâneos – Auster, Galera, Puig – que para mim já marcavam grande diferença estética e narrativa em relação aos clássicos favoritos, pareciam tão pouco detalhistas.

Tive que virar algumas páginas para acostumar-me ao estilo de Camus e começar a desfrutar de O Estrangeiro. Quando consegui assimilar sua escritura, passei a reconhecer pequenos momentos de genialidade em seus parágrafos. Como cápsulas de uma engenhosidade que me fizeram enxergar o por quê de Camus ser reconhecido até hoje como um dos grandes nomes da literatura francesa. Quando captei seu ritmo, devorei o romance de modo apaixonado. O Estrangeiro entrou para minha lista de livros favoritos.

Há alguns dias comecei a ler meu primeiro V. S. Naipaul, Uma Curva no Rio, numa linda edição da Companhia das Letras que é parte de uma coleção com autores vencedores do prêmio Nobel. De Naipaul eu só conhecia, de ouvir falar, o nome. Sua obra e sua trajetória – inclusive sua premiação – eram completamente desconhecidas para mim. Acontece que, já nas primeiras páginas, dei de cara com aquele estilo de escrita que eu não encontrava desde O Estrangeiro. Sobressalto! Havia terminado de ler As Correções, do Franzen, há algumas semanas (um contemporâneo cheio de descrições detalhadas de ambientes e personagens), e havia começado simultaneamente com o Ulisses, do Joyce. E aí, de repente, me aparece um Naipaul de parágrafos curtos e frases enxutas. Bomba!

Vou aí pela página 50 do livro. A trama é interessante – uma África que busca retomar sua autonomia pós-colonial – os personagens são curiosos, o cara recebeu um Nobel… mas Naipaul ainda não me ganhou. Ainda não consigo desfrutar totalmente da história e, sempre que salto de um parágrafo ao outro, penso: poxa, ele podia ter contado isso de forma mais misteriosa, mais elaborada, mais cheia de detalhes, mais Woolfiana. Até agora, o grande mérito do livro, para mim, é meter-me num contexto histórico-político-social que, de outro modo, eu talvez não conheceria.

Ainda estou esperando pelas pequenas genialidades de Camus nos pequenos parágrafos de Naipaul. São cenas dos próximos capítulos.

Sobre morar (fora)

Estou aqui há um ano e meio. Essa é a primeira vez que escrevo um post desde algo que não seja um computador de mesa. Me rendi ao tablet que ganhei no trabalho. Foram muitas rendições em todo esse tempo de Uruguai. O frio, o estranhamento, o sedentarismo, o “trabalhar em qualquer coisa”, a má alimentação. A saudade de casa. A vontade de voltar pra casa. O desejo de deixar de morar fora. Voltar a morar dentro. E morar em outro fora, outra vez. Rendições, todas elas. Ser cidadão do mundo cansa. Carregar seu próprio mundo na mochila, cansa mais ainda. Sentir falta cansa muitíssimo. Cansar de cansar-se por tudo isso é o mais cansativo de tudo.

A ilusão da vida dinâmica, da não-rotina, do brinde ao novo, do desapego e da temporalidade dos atos é uma… ilusão! Dura o que tem que durar. É linda. É estimulante. É a ketamina das ilusões. Mas cansa. Perde a graça. Perde o novo. Perde-se por aí, pelas horas rígidas dos empregos, pelas contas acumuladas, pelos quilos ganhos. Perde-se. E o que fica, depois de tantas perdas, é a certeza de que morar, dentro ou fora, fode com tudo. O segredo é morar não morando. Estar não estando. Não agendar, não estipular, não calcular, não prever, não usar o whatsapp. Fugir do instantâneo – ou ao menos reduzir o seu uso – e tentar plasmar os exageros. Quando penso em minha viagem, lembro com mais carinho daqueles momentos de não contenção. O resto é o resto. E restos são os mesmos aqui, em Fortaleza e em qualquer lugar do mundo.

O olhar de masina

Quem não se deixaria seduzir pelos grandes olhos negros de Giulietta Masina? Comparada com as outras figuras femininas que povoam o imaginário fílmico de Fellini – altas e elegantes ou gordas e peitudas – Masina passaria desapercebida com seu porte físico reduzido e a fragilidade de sua beleza. Mas há tanta força em seu olhar, tanta sinceridade em sua atuação, em sua dedicação aos personagens que realiza, que é fácil perceber porque o diretor a escolheu mesmo estando cercado pelas mulheres mais lindas do cinema italiano. Masina, de uma simplicidade que beirava o infantil, tinha a capacidade de transmitir toda a carga dramática de uma cena com um simples gesto, com um movimento dos lábios, com uma mirada esperançosa em direção ao espectador. Masina foi a perfeita personificação do neorrealismo italiano, do belo oculto sob uma fachada de aparente fragilidade e caos.

Tu não te moves de ti

Já tenho um ano de Uruguai nas costas. Um ano e quase dois meses mais. “Celebrei” meu aniversário aqui duas vezes, e as aspas estão aí porque, na verdade, não fiz nenhuma celebração pra comemorar a data de meu nascimento.

É curiosa a sensação de olhar para trás e ver que você, assim meio sem jeito, acabou construindo uma nova vida num novo país. É curioso e um tanto pessimista – ou otimista, vai depender do seu humor do dia – já que você também percebe que por mais que tudo tenha mudado, tudo continua exatamente igual. E que o novo tornou-se velho. E que o mais velho ainda, ainda está lá, no exato ponto onde você o deixou quando saiu de casa. Eu, quando sai, alimentava a ideia de uma vida emocionante. Queria ser o assassino da minha própria rotina, e descobrir coisas novas, e conhecer gente nova, e nunca mais cair no marasmo dos dias feitos, das horas rígidas. E no início, foi assim que me senti. E pensei comigo mesmo que eu havia saído vitorioso em meu plano de levar uma vida dinâmica. Mas a verdade é que, quando a excitação pelo novo desaparece, quando a poeira baixa, quando as ruas começam a se repetir em suas rotas, e os rostos assentam em sua memória, e você já cumprimenta o vendedor da padaria da esquina, quando tudo isso acontece, a verdade é que você percebe que nunca saiu de onde esteve, e que não importa nada onde você acha que realmente está.

Hilda Hilst escreveu em um de seus livros que, não importa o que façamos, não importa para onde fujamos, sempre estaremos no mesmo lugar. Tu não te moves de ti, escreveu Hilst. Você tem razão, respondi.

“Prá onde vão os trens, meu pai?
Para Mahal Tami, Cam rí, espaços no mapa, e depois o pai ria:
também prá lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti. “