Tosse de Cachorro

Categoria: Viagens

Nova-velha casa

Passar dois anos longe de casa é passar a ter uma nova casa. E voltar pra velha casa é sair de casa uma vez mais.

É o que aprendi nesse quase um mês em que voltei ao Brasil.

Agora, sinto pelo Uruguai a mesma saudade que senti quando deixei Fortaleza no início de 2013. Saudade dos amigos uruguaios – a família uruguaia, afinal – de minha casa, dos meus móveis, dos meus livros, minhas roupas de frio, meus trajetos, minha rotina, meus horários. Ainda não me habituei ao velho-novo estilo de vida daqui, e até as horas de sono estão mais ou menos atribuladas, porque minha velha-nova cama não tem mais a forma do meu corpo, não é mais tão aconchegante. Não me habituei ao trânsito caótico, aos engarrafamentos que te prendem por horas, ao medo de sair de casa, aos cuidados constantes com a segurança, ao calor que te faz suar ao mínimo movimento.

“No Uruguai não é assim” é a frase que mais repito. Tanto que imagino ser uma chatice para os que a escutam com essa frequência exagerada. E me dizem “ah, mas você já saiu de casa uma vez, já sabe como é”. Mas agora, queridos amigos, há um elemento agravante: quando sai de casa em 2013, estava indo a um país novo, começar do zero. Não conhecia ninguém e ninguém me conhecia em Montevidéu. Nas raras ocasiões em que isso acontece, quando você tem a oportunidade de chegar a um lugar desconhecido, como um forasteiro, considere-se um cara de sorte. Você vai ter a chance de construir sua vida como você bem entender, sem os vícios, prejuízos e preconceitos da vida anterior. É a chance de viver sem as máscaras impostas pelas convenções e pela família, de ultrapassar seus limites – ou de ousar lutar para ultrapassá-los, de aprender a conviver com seus erros – afinal, você não está sob a mira de ninguém que vá apontá-los.

Sair da nova-casa e voltar pra velha-nova-casa, por outro lado, é ter a certeza de que tudo o que você lutou para abandonar está a sua espera, e que você precisa se adequar outra vez a essas normas se não quiser ser apontado como rebelde ou descompensado, se não quiser um “eu não te reconheço mais” dito em tom acusatório.

O maior aprendizado, talvez, seja justamente poder reconhecer que a pessoa que me tornei é melhor que a pessoa que eu era antes de sair de casa pela primeira vez. E poder seguir sendo quem eu escolhi ser, porque é questão de tempo até que a cama tenha outra vez a forma do meu novo corpo.

Sobre morar (fora)

Estou aqui há um ano e meio. Essa é a primeira vez que escrevo um post desde algo que não seja um computador de mesa. Me rendi ao tablet que ganhei no trabalho. Foram muitas rendições em todo esse tempo de Uruguai. O frio, o estranhamento, o sedentarismo, o “trabalhar em qualquer coisa”, a má alimentação. A saudade de casa. A vontade de voltar pra casa. O desejo de deixar de morar fora. Voltar a morar dentro. E morar em outro fora, outra vez. Rendições, todas elas. Ser cidadão do mundo cansa. Carregar seu próprio mundo na mochila, cansa mais ainda. Sentir falta cansa muitíssimo. Cansar de cansar-se por tudo isso é o mais cansativo de tudo.

A ilusão da vida dinâmica, da não-rotina, do brinde ao novo, do desapego e da temporalidade dos atos é uma… ilusão! Dura o que tem que durar. É linda. É estimulante. É a ketamina das ilusões. Mas cansa. Perde a graça. Perde o novo. Perde-se por aí, pelas horas rígidas dos empregos, pelas contas acumuladas, pelos quilos ganhos. Perde-se. E o que fica, depois de tantas perdas, é a certeza de que morar, dentro ou fora, fode com tudo. O segredo é morar não morando. Estar não estando. Não agendar, não estipular, não calcular, não prever, não usar o whatsapp. Fugir do instantâneo – ou ao menos reduzir o seu uso – e tentar plasmar os exageros. Quando penso em minha viagem, lembro com mais carinho daqueles momentos de não contenção. O resto é o resto. E restos são os mesmos aqui, em Fortaleza e em qualquer lugar do mundo.

Tu não te moves de ti

Já tenho um ano de Uruguai nas costas. Um ano e quase dois meses mais. “Celebrei” meu aniversário aqui duas vezes, e as aspas estão aí porque, na verdade, não fiz nenhuma celebração pra comemorar a data de meu nascimento.

É curiosa a sensação de olhar para trás e ver que você, assim meio sem jeito, acabou construindo uma nova vida num novo país. É curioso e um tanto pessimista – ou otimista, vai depender do seu humor do dia – já que você também percebe que por mais que tudo tenha mudado, tudo continua exatamente igual. E que o novo tornou-se velho. E que o mais velho ainda, ainda está lá, no exato ponto onde você o deixou quando saiu de casa. Eu, quando sai, alimentava a ideia de uma vida emocionante. Queria ser o assassino da minha própria rotina, e descobrir coisas novas, e conhecer gente nova, e nunca mais cair no marasmo dos dias feitos, das horas rígidas. E no início, foi assim que me senti. E pensei comigo mesmo que eu havia saído vitorioso em meu plano de levar uma vida dinâmica. Mas a verdade é que, quando a excitação pelo novo desaparece, quando a poeira baixa, quando as ruas começam a se repetir em suas rotas, e os rostos assentam em sua memória, e você já cumprimenta o vendedor da padaria da esquina, quando tudo isso acontece, a verdade é que você percebe que nunca saiu de onde esteve, e que não importa nada onde você acha que realmente está.

Hilda Hilst escreveu em um de seus livros que, não importa o que façamos, não importa para onde fujamos, sempre estaremos no mesmo lugar. Tu não te moves de ti, escreveu Hilst. Você tem razão, respondi.

“Prá onde vão os trens, meu pai?
Para Mahal Tami, Cam rí, espaços no mapa, e depois o pai ria:
também prá lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti. “