Tosse de Cachorro

Categoria: Cinema

Junho de dois mil e dezessete

O mês em que me desiludi uma vez mais com Murakami (Kafka à beira-mar) e me deslumbrei com Kawabata (A casa das belas adormecidas).

Em que mergulhei ainda mais no oriente com The wailing, um dos melhores filmes de horror dos últimos anos, e me emocionei com I am not your negro, apesar dos pesares.

O mês que me apresentou Mr. Robot e que encerrou The night manager, duas séries boas demais para permanecerem esquecidas.

O último mês do Café Clube de Leitura do jornal O Povo, coordenado por mim e pela Marina Solon, com um debate divertido sobre Nove noites, a melhor coisa que Bernardo Carvalho já escreveu.

No último dia do mês, uma surpresa. Finalmente o Spotify disponibilizou toda a discografia do Beach House, inclusive um disco de raros e b-sides lançado há um mês.

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Janeiro de dois mil e dezessete

Um Outro Amor, a segunda parte da série Minha Luta, do Knausgard, não é tão bom quanto o primeiro, mas continua firme. Devo seguir para os próximos volumes.

Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?, livraço de ficção-científica, meu primeiro K. Dick. O contexto filosófico-religioso, que aparentemente foi deixado de fora do filme (que ainda não vi) é genial.

Outra ficção-cientifica – cada vez leio mais o gênero -, O Homem Invisível, do H. G. Wells. Divertida. O ano promete ser cheio de reedições do autor, agora que sua obra entrou em domínio público.

Dawn of the Planet of the Apes reafirma meu sentimento pela série Planeta dos Macacos, minha favorita do cinema.

Falando em Oscar, que em 2017 parece ter resgatado a tradição de ter bons filmes entre os indicados. Moonlight, A ChegadaManchester by the Sea são cinema puro. Impossível escolher um favorito. La La Land é bonito mas decepciona. Expectativas são uma droga.

Fazia tempo que eu não colocava Flaming Lips para tocar. Oczy Mlody, lançado agora, é psicodelia da melhor qualidade e um dos melhores discos da banda. Miley Cyrus foi uma excelente aquisição.

 

Sobre os italianos

Fellini é um dos meus diretores favoritos. Noites de Cabíria e Amarcord estão na minha lista de filmes da vida. Ginger & Fred e Ensaio de Orquestra são deliciosos. 8 1/2, A Doce Vida e A Estrada, embora não tenham a mesma simplicidade extravagante (felliniana, diriam) dos outros dois, também são excelentes. Terminei meu domingo com Roma, de 1972, e de agora em diante vou lembrar da capital italiana como: a) a cidade das pensões superlotadas, com crianças gasguitas, mulheres gordas prostradas na cama e asiáticos que cozinham no próprio dormitório; b) a cidade dos shows de calouro mais caóticos que podem existir; c) a cidade das putas, de todos os tipos, tamanhos e sorrisos; d) a cidade dos desfiles de moda eclesiástica.

O olhar de masina

Quem não se deixaria seduzir pelos grandes olhos negros de Giulietta Masina? Comparada com as outras figuras femininas que povoam o imaginário fílmico de Fellini – altas e elegantes ou gordas e peitudas – Masina passaria desapercebida com seu porte físico reduzido e a fragilidade de sua beleza. Mas há tanta força em seu olhar, tanta sinceridade em sua atuação, em sua dedicação aos personagens que realiza, que é fácil perceber porque o diretor a escolheu mesmo estando cercado pelas mulheres mais lindas do cinema italiano. Masina, de uma simplicidade que beirava o infantil, tinha a capacidade de transmitir toda a carga dramática de uma cena com um simples gesto, com um movimento dos lábios, com uma mirada esperançosa em direção ao espectador. Masina foi a perfeita personificação do neorrealismo italiano, do belo oculto sob uma fachada de aparente fragilidade e caos.