Um & outro

“Em todo uniformizado não vê uma pessoa, mas duas, pelo menos duas e que se opõem, uma que promete segurança e outra que rouba e violenta à mão armada, uma que vigia as fronteiras da pátria e outra que saqueia e extermina com distintivo no peito, uma que abençoa e reconforta e outra que se faz masturbar por coroinhas no confessionário, uma que sorri e opera a caixa registradora com profissionalismo e outra que soma produtos que ninguém comprou, e dessas duas há uma, a secreta, a que se oculta atrás do verde-oliva, da insígnia de grau, do cabeção sacerdotal, até mesmo do lenço e do paletó de tweed e das botas de montaria do oligarca torturado, que, provavelmente ausentes de um catálogo oficial de uniformes, ocuparia página dupla central em qualquer um dedicado aos usos e costumes da classe alta argentina, que é a pessoa que ele teme, não tanto pelo que lhe possa fazer, porque, já alertado pelo signo do uniforme, sabe de antemão o ás trapaceiro que esconde na manga e como evitá-lo, quanto porque em algum momento, mais cedo ou mais tarde, esse duplo clandestino irá vê-lo, reconhecê-lo, tocá-lo no ombro, e confiará a ele, só a ele, o que lhe arde no peito.”

Alan Pauls, História do Pranto, pag. 45