Tosse de Cachorro

Mês: abril, 2015

Nova-velha casa

Passar dois anos longe de casa é passar a ter uma nova casa. E voltar pra velha casa é sair de casa uma vez mais.

É o que aprendi nesse quase um mês em que voltei ao Brasil.

Agora, sinto pelo Uruguai a mesma saudade que senti quando deixei Fortaleza no início de 2013. Saudade dos amigos uruguaios – a família uruguaia, afinal – de minha casa, dos meus móveis, dos meus livros, minhas roupas de frio, meus trajetos, minha rotina, meus horários. Ainda não me habituei ao velho-novo estilo de vida daqui, e até as horas de sono estão mais ou menos atribuladas, porque minha velha-nova cama não tem mais a forma do meu corpo, não é mais tão aconchegante. Não me habituei ao trânsito caótico, aos engarrafamentos que te prendem por horas, ao medo de sair de casa, aos cuidados constantes com a segurança, ao calor que te faz suar ao mínimo movimento.

“No Uruguai não é assim” é a frase que mais repito. Tanto que imagino ser uma chatice para os que a escutam com essa frequência exagerada. E me dizem “ah, mas você já saiu de casa uma vez, já sabe como é”. Mas agora, queridos amigos, há um elemento agravante: quando sai de casa em 2013, estava indo a um país novo, começar do zero. Não conhecia ninguém e ninguém me conhecia em Montevidéu. Nas raras ocasiões em que isso acontece, quando você tem a oportunidade de chegar a um lugar desconhecido, como um forasteiro, considere-se um cara de sorte. Você vai ter a chance de construir sua vida como você bem entender, sem os vícios, prejuízos e preconceitos da vida anterior. É a chance de viver sem as máscaras impostas pelas convenções e pela família, de ultrapassar seus limites – ou de ousar lutar para ultrapassá-los, de aprender a conviver com seus erros – afinal, você não está sob a mira de ninguém que vá apontá-los.

Sair da nova-casa e voltar pra velha-nova-casa, por outro lado, é ter a certeza de que tudo o que você lutou para abandonar está a sua espera, e que você precisa se adequar outra vez a essas normas se não quiser ser apontado como rebelde ou descompensado, se não quiser um “eu não te reconheço mais” dito em tom acusatório.

O maior aprendizado, talvez, seja justamente poder reconhecer que a pessoa que me tornei é melhor que a pessoa que eu era antes de sair de casa pela primeira vez. E poder seguir sendo quem eu escolhi ser, porque é questão de tempo até que a cama tenha outra vez a forma do meu novo corpo.

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O sangue latino do Galeano

Em 2009, muito antes de pensar em sair de casa, ainda duvidando sobre a nova graduação que eu recém havia começado, encontrei As Veias Abertas da América Latina, recomendação de um amigo-professor que tomei como exemplo em minha carreira universitária. E foi aí que nasceu um interesse, platônico mesmo – mais pelo mundo que pelo escritor – que me fez riscar da lista de planos qualquer lugar que não estivesse na parte sul da América.

E veio então O Livro dos Abraços, a mudança pro Uruguai, a constatação de que por lá o autor não é a mesma unanimidade que é por aqui, o encontro inesperado numa esquina de Montevidéu (e a surpresa no olhar dos dois, porque eu não consegui falar ou fazer nada naquele instante), o Futebol ao Sol e à Sombra e Os Filhos dos Dias.

Pra mim, nunca foi o escritor ícone, o modelo a seguir ou o suprassumo da literatura latino-americana. Mas fomentou e esteve presente nas decisões e paixões que marcaram minha história nos últimos seis anos.

E agora, como estar em Montevidéu sem imaginar outro encontro casual em alguma esquina do Parque Rodó?

Eduardo Galeano (1940 – 2015)

Aqui o link para uma entrevista, fundamental.