Escritores corredores

por jaderstn

Lembro que senti alguma estranheza ao ler as primeiras páginas de O Estrangeiro, do Camus. Num primeiro momento, desconfiei de tamanha agilidade no desenvolvimento das ideias e da falta de detalhes que me ajudassem a compor o quadro narrativo. Demorei um pouco pra me acostumar ao seu estilo literário conciso, direto. “Mas esse é o grande Camus de quem todos falam?”. Procurava algum indício de genialidade, mas a narrativa corria demasiado rápido, e as palavras era muito literais, e os parágrafos eram muito curtos…

É estranho dar de cara com esse tipo de escrita quando seus autores favoritos são conhecidos por perder-se em pensamentos e fluxos. Senti saudades dos parágrafos intermináveis de Virginia Woolf, da subjetividade de Dostoievski, da ambiguidade estrutural de Pirandello. Não encontrei em minha estante nenhum outro livro que pelo menos se assemelhasse ao praticado por Camus. Nem os bons contemporâneos – Auster, Galera, Puig – que para mim já marcavam grande diferença estética e narrativa em relação aos clássicos favoritos, pareciam tão pouco detalhistas.

Tive que virar algumas páginas para acostumar-me ao estilo de Camus e começar a desfrutar de O Estrangeiro. Quando consegui assimilar sua escritura, passei a reconhecer pequenos momentos de genialidade em seus parágrafos. Como cápsulas de uma engenhosidade que me fizeram enxergar o por quê de Camus ser reconhecido até hoje como um dos grandes nomes da literatura francesa. Quando captei seu ritmo, devorei o romance de modo apaixonado. O Estrangeiro entrou para minha lista de livros favoritos.

Há alguns dias comecei a ler meu primeiro V. S. Naipaul, Uma Curva no Rio, numa linda edição da Companhia das Letras que é parte de uma coleção com autores vencedores do prêmio Nobel. De Naipaul eu só conhecia, de ouvir falar, o nome. Sua obra e sua trajetória – inclusive sua premiação – eram completamente desconhecidas para mim. Acontece que, já nas primeiras páginas, dei de cara com aquele estilo de escrita que eu não encontrava desde O Estrangeiro. Sobressalto! Havia terminado de ler As Correções, do Franzen, há algumas semanas (um contemporâneo cheio de descrições detalhadas de ambientes e personagens), e havia começado simultaneamente com o Ulisses, do Joyce. E aí, de repente, me aparece um Naipaul de parágrafos curtos e frases enxutas. Bomba!

Vou aí pela página 50 do livro. A trama é interessante – uma África que busca retomar sua autonomia pós-colonial – os personagens são curiosos, o cara recebeu um Nobel… mas Naipaul ainda não me ganhou. Ainda não consigo desfrutar totalmente da história e, sempre que salto de um parágrafo ao outro, penso: poxa, ele podia ter contado isso de forma mais misteriosa, mais elaborada, mais cheia de detalhes, mais Woolfiana. Até agora, o grande mérito do livro, para mim, é meter-me num contexto histórico-político-social que, de outro modo, eu talvez não conheceria.

Ainda estou esperando pelas pequenas genialidades de Camus nos pequenos parágrafos de Naipaul. São cenas dos próximos capítulos.

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