Sobre morar (fora)

por jaderstn

Estou aqui há um ano e meio. Essa é a primeira vez que escrevo um post desde algo que não seja um computador de mesa. Me rendi ao tablet que ganhei no trabalho. Foram muitas rendições em todo esse tempo de Uruguai. O frio, o estranhamento, o sedentarismo, o “trabalhar em qualquer coisa”, a má alimentação. A saudade de casa. A vontade de voltar pra casa. O desejo de deixar de morar fora. Voltar a morar dentro. E morar em outro fora, outra vez. Rendições, todas elas. Ser cidadão do mundo cansa. Carregar seu próprio mundo na mochila, cansa mais ainda. Sentir falta cansa muitíssimo. Cansar de cansar-se por tudo isso é o mais cansativo de tudo.

A ilusão da vida dinâmica, da não-rotina, do brinde ao novo, do desapego e da temporalidade dos atos é uma… ilusão! Dura o que tem que durar. É linda. É estimulante. É a ketamina das ilusões. Mas cansa. Perde a graça. Perde o novo. Perde-se por aí, pelas horas rígidas dos empregos, pelas contas acumuladas, pelos quilos ganhos. Perde-se. E o que fica, depois de tantas perdas, é a certeza de que morar, dentro ou fora, fode com tudo. O segredo é morar não morando. Estar não estando. Não agendar, não estipular, não calcular, não prever, não usar o whatsapp. Fugir do instantâneo – ou ao menos reduzir o seu uso – e tentar plasmar os exageros. Quando penso em minha viagem, lembro com mais carinho daqueles momentos de não contenção. O resto é o resto. E restos são os mesmos aqui, em Fortaleza e em qualquer lugar do mundo.

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