Tu não te moves de ti

por jaderstn

Já tenho um ano de Uruguai nas costas. Um ano e quase dois meses mais. “Celebrei” meu aniversário aqui duas vezes, e as aspas estão aí porque, na verdade, não fiz nenhuma celebração pra comemorar a data de meu nascimento.

É curiosa a sensação de olhar para trás e ver que você, assim meio sem jeito, acabou construindo uma nova vida num novo país. É curioso e um tanto pessimista – ou otimista, vai depender do seu humor do dia – já que você também percebe que por mais que tudo tenha mudado, tudo continua exatamente igual. E que o novo tornou-se velho. E que o mais velho ainda, ainda está lá, no exato ponto onde você o deixou quando saiu de casa. Eu, quando sai, alimentava a ideia de uma vida emocionante. Queria ser o assassino da minha própria rotina, e descobrir coisas novas, e conhecer gente nova, e nunca mais cair no marasmo dos dias feitos, das horas rígidas. E no início, foi assim que me senti. E pensei comigo mesmo que eu havia saído vitorioso em meu plano de levar uma vida dinâmica. Mas a verdade é que, quando a excitação pelo novo desaparece, quando a poeira baixa, quando as ruas começam a se repetir em suas rotas, e os rostos assentam em sua memória, e você já cumprimenta o vendedor da padaria da esquina, quando tudo isso acontece, a verdade é que você percebe que nunca saiu de onde esteve, e que não importa nada onde você acha que realmente está.

Hilda Hilst escreveu em um de seus livros que, não importa o que façamos, não importa para onde fujamos, sempre estaremos no mesmo lugar. Tu não te moves de ti, escreveu Hilst. Você tem razão, respondi.

“Prá onde vão os trens, meu pai?
Para Mahal Tami, Cam rí, espaços no mapa, e depois o pai ria:
também prá lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti. “

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