Tosse de Cachorro

Carnaval pré-apocalíptico

Li o novo do Galera, Meia-Noite e Vinte, na mais desconfortável cadeira de hospital que alguém já pôde criar. É um bom livro, mas encerrei sua leitura com a sensação de que não teria desfrutado tanto de sua história e construção se não estivesse naquelas circunstâncias. Minha vó veio às pressas do interior, respirando por um balão de oxigênio em uma ambulância sem refrigeração em pleno domingo de carnaval. Seis horas de viagem até Fortaleza. Os quartos no hospital, esgotados. Na enfermaria da emergência, uma cama vazia. Estive ao seu lado até as sete da manhã de hoje, quando minha irmã assumiu meu posto. Ao lado da cama, uma cadeira. Uma cadeira, e não uma poltrona. Uma cadeira de plástico, sem apoio para os braços. Cama número quatro, ao lado do banheiro. O banheiro da enfermaria da emergência. Da emergência.

Virei a madrugada lendo e terminando Meia-Noite e Vinte e começando A Trilogia de Nova York, do Auster. Dormi das quatro às seis. Meu corpo não aguentou. Enquanto mantive os olhos abertos, o Galera me fisgou com a turbulência de seus personagens (apesar de uma ou outra derrapada que reforça estereótipos que não precisam ser reforçados) e com as reflexões de uma geração que por pouco não foi a minha. Nasci nos oitenta, descobri a internet nos dois mil, quando o bug do milênio não era mais que uma piada. Galera sabe construir personagens que geram graus variados de uma empatia que nunca deixa de existir. Me agradam seus homens e mulheres. Quis saber mais sobre eles ao fim do livro. Foram poucas as páginas.

E os de Meia-Noite e Vinte, sobretudo, geram identificação imediata para aqueles dos setenta-oitenta-e-talvez-noventa que de alguma forma viram ruir o projeto (a utopia?) político-social que se anunciava com a popularização da internet. Em uma entrevista ao Zero Hora, Galera, classificou seu texto como pré-apocalíptico. Parece adequado. A sensação de que uma hecatombe está prestes a acontecer não se dissipa ao fim das páginas. Entre o dito e o não dito dos personagens, sobra uma quase profecia de caos e lama. E caos, lama, bipes eletrônicos, aparelhos de pressão, antibióticos na veia, veias inchadas e cheiro de merda são a única realidade de alguém obrigado a virar a noite na pior cadeira de hospital já desenhada.

(A propósito, continuo tendo o Galera em alta conta na safra de autores contemporâneos nacionais. Minha ordem de preferências fica Até o Dia em que o Cão Morreu > Barba Ensopada > Mãos de Cavalo > Meia-Noite e Vinte > Cordilheira)

Janeiro de dois mil e dezessete

Um Outro Amor, a segunda parte da série Minha Luta, do Knausgard, não é tão bom quanto o primeiro, mas continua firme. Devo seguir para os próximos volumes.

Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?, livraço de ficção-científica, meu primeiro K. Dick. O contexto filosófico-religioso, que aparentemente foi deixado de fora do filme (que ainda não vi) é genial.

Outra ficção-cientifica – cada vez leio mais o gênero -, O Homem Invisível, do H. G. Wells. Divertida. O ano promete ser cheio de reedições do autor, agora que sua obra entrou em domínio público.

Dawn of the Planet of the Apes reafirma meu sentimento pela série Planeta dos Macacos, minha favorita do cinema.

Falando em Oscar, que em 2017 parece ter resgatado a tradição de ter bons filmes entre os indicados. Moonlight, A ChegadaManchester by the Sea são cinema puro. Impossível escolher um favorito. La La Land é bonito mas decepciona. Expectativas são uma droga.

Fazia tempo que eu não colocava Flaming Lips para tocar. Oczy Mlody, lançado agora, é psicodelia da melhor qualidade e um dos melhores discos da banda. Miley Cyrus foi uma excelente aquisição.

 

Szymborska #2

Tudo meu, nenhuma posse,
nenhuma posse para a lembrança
mas meu enquanto olho.

Szymborska

Relógio, aflore do rio
e permita que te segure na mão,
para que eu possa dizer:
Você finge ser a hora.

Um & outro

“Em todo uniformizado não vê uma pessoa, mas duas, pelo menos duas e que se opõem, uma que promete segurança e outra que rouba e violenta à mão armada, uma que vigia as fronteiras da pátria e outra que saqueia e extermina com distintivo no peito, uma que abençoa e reconforta e outra que se faz masturbar por coroinhas no confessionário, uma que sorri e opera a caixa registradora com profissionalismo e outra que soma produtos que ninguém comprou, e dessas duas há uma, a secreta, a que se oculta atrás do verde-oliva, da insígnia de grau, do cabeção sacerdotal, até mesmo do lenço e do paletó de tweed e das botas de montaria do oligarca torturado, que, provavelmente ausentes de um catálogo oficial de uniformes, ocuparia página dupla central em qualquer um dedicado aos usos e costumes da classe alta argentina, que é a pessoa que ele teme, não tanto pelo que lhe possa fazer, porque, já alertado pelo signo do uniforme, sabe de antemão o ás trapaceiro que esconde na manga e como evitá-lo, quanto porque em algum momento, mais cedo ou mais tarde, esse duplo clandestino irá vê-lo, reconhecê-lo, tocá-lo no ombro, e confiará a ele, só a ele, o que lhe arde no peito.”

Alan Pauls, História do Pranto, pag. 45

Sobre os italianos

Fellini é um dos meus diretores favoritos. Noites de Cabíria e Amarcord estão na minha lista de filmes da vida. Ginger & Fred e Ensaio de Orquestra são deliciosos. 8 1/2, A Doce Vida e A Estrada, embora não tenham a mesma simplicidade extravagante (felliniana, diriam) dos outros dois, também são excelentes. Terminei meu domingo com Roma, de 1972, e de agora em diante vou lembrar da capital italiana como: a) a cidade das pensões superlotadas, com crianças gasguitas, mulheres gordas prostradas na cama e asiáticos que cozinham no próprio dormitório; b) a cidade dos shows de calouro mais caóticos que podem existir; c) a cidade das putas, de todos os tipos, tamanhos e sorrisos; d) a cidade dos desfiles de moda eclesiástica.

Nova-velha casa

Passar dois anos longe de casa é passar a ter uma nova casa. E voltar pra velha casa é sair de casa uma vez mais.

É o que aprendi nesse quase um mês em que voltei ao Brasil.

Agora, sinto pelo Uruguai a mesma saudade que senti quando deixei Fortaleza no início de 2013. Saudade dos amigos uruguaios – a família uruguaia, afinal – de minha casa, dos meus móveis, dos meus livros, minhas roupas de frio, meus trajetos, minha rotina, meus horários. Ainda não me habituei ao velho-novo estilo de vida daqui, e até as horas de sono estão mais ou menos atribuladas, porque minha velha-nova cama não tem mais a forma do meu corpo, não é mais tão aconchegante. Não me habituei ao trânsito caótico, aos engarrafamentos que te prendem por horas, ao medo de sair de casa, aos cuidados constantes com a segurança, ao calor que te faz suar ao mínimo movimento.

“No Uruguai não é assim” é a frase que mais repito. Tanto que imagino ser uma chatice para os que a escutam com essa frequência exagerada. E me dizem “ah, mas você já saiu de casa uma vez, já sabe como é”. Mas agora, queridos amigos, há um elemento agravante: quando sai de casa em 2013, estava indo a um país novo, começar do zero. Não conhecia ninguém e ninguém me conhecia em Montevidéu. Nas raras ocasiões em que isso acontece, quando você tem a oportunidade de chegar a um lugar desconhecido, como um forasteiro, considere-se um cara de sorte. Você vai ter a chance de construir sua vida como você bem entender, sem os vícios, prejuízos e preconceitos da vida anterior. É a chance de viver sem as máscaras impostas pelas convenções e pela família, de ultrapassar seus limites – ou de ousar lutar para ultrapassá-los, de aprender a conviver com seus erros – afinal, você não está sob a mira de ninguém que vá apontá-los.

Sair da nova-casa e voltar pra velha-nova-casa, por outro lado, é ter a certeza de que tudo o que você lutou para abandonar está a sua espera, e que você precisa se adequar outra vez a essas normas se não quiser ser apontado como rebelde ou descompensado, se não quiser um “eu não te reconheço mais” dito em tom acusatório.

O maior aprendizado, talvez, seja justamente poder reconhecer que a pessoa que me tornei é melhor que a pessoa que eu era antes de sair de casa pela primeira vez. E poder seguir sendo quem eu escolhi ser, porque é questão de tempo até que a cama tenha outra vez a forma do meu novo corpo.

O sangue latino do Galeano

Em 2009, muito antes de pensar em sair de casa, ainda duvidando sobre a nova graduação que eu recém havia começado, encontrei As Veias Abertas da América Latina, recomendação de um amigo-professor que tomei como exemplo em minha carreira universitária. E foi aí que nasceu um interesse, platônico mesmo – mais pelo mundo que pelo escritor – que me fez riscar da lista de planos qualquer lugar que não estivesse na parte sul da América.

E veio então O Livro dos Abraços, a mudança pro Uruguai, a constatação de que por lá o autor não é a mesma unanimidade que é por aqui, o encontro inesperado numa esquina de Montevidéu (e a surpresa no olhar dos dois, porque eu não consegui falar ou fazer nada naquele instante), o Futebol ao Sol e à Sombra e Os Filhos dos Dias.

Pra mim, nunca foi o escritor ícone, o modelo a seguir ou o suprassumo da literatura latino-americana. Mas fomentou e esteve presente nas decisões e paixões que marcaram minha história nos últimos seis anos.

E agora, como estar em Montevidéu sem imaginar outro encontro casual em alguma esquina do Parque Rodó?

Eduardo Galeano (1940 – 2015)

Aqui o link para uma entrevista, fundamental.

Escritores corredores

Lembro que senti alguma estranheza ao ler as primeiras páginas de O Estrangeiro, do Camus. Num primeiro momento, desconfiei de tamanha agilidade no desenvolvimento das ideias e da falta de detalhes que me ajudassem a compor o quadro narrativo. Demorei um pouco pra me acostumar ao seu estilo literário conciso, direto. “Mas esse é o grande Camus de quem todos falam?”. Procurava algum indício de genialidade, mas a narrativa corria demasiado rápido, e as palavras era muito literais, e os parágrafos eram muito curtos…

É estranho dar de cara com esse tipo de escrita quando seus autores favoritos são conhecidos por perder-se em pensamentos e fluxos. Senti saudades dos parágrafos intermináveis de Virginia Woolf, da subjetividade de Dostoievski, da ambiguidade estrutural de Pirandello. Não encontrei em minha estante nenhum outro livro que pelo menos se assemelhasse ao praticado por Camus. Nem os bons contemporâneos – Auster, Galera, Puig – que para mim já marcavam grande diferença estética e narrativa em relação aos clássicos favoritos, pareciam tão pouco detalhistas.

Tive que virar algumas páginas para acostumar-me ao estilo de Camus e começar a desfrutar de O Estrangeiro. Quando consegui assimilar sua escritura, passei a reconhecer pequenos momentos de genialidade em seus parágrafos. Como cápsulas de uma engenhosidade que me fizeram enxergar o por quê de Camus ser reconhecido até hoje como um dos grandes nomes da literatura francesa. Quando captei seu ritmo, devorei o romance de modo apaixonado. O Estrangeiro entrou para minha lista de livros favoritos.

Há alguns dias comecei a ler meu primeiro V. S. Naipaul, Uma Curva no Rio, numa linda edição da Companhia das Letras que é parte de uma coleção com autores vencedores do prêmio Nobel. De Naipaul eu só conhecia, de ouvir falar, o nome. Sua obra e sua trajetória – inclusive sua premiação – eram completamente desconhecidas para mim. Acontece que, já nas primeiras páginas, dei de cara com aquele estilo de escrita que eu não encontrava desde O Estrangeiro. Sobressalto! Havia terminado de ler As Correções, do Franzen, há algumas semanas (um contemporâneo cheio de descrições detalhadas de ambientes e personagens), e havia começado simultaneamente com o Ulisses, do Joyce. E aí, de repente, me aparece um Naipaul de parágrafos curtos e frases enxutas. Bomba!

Vou aí pela página 50 do livro. A trama é interessante – uma África que busca retomar sua autonomia pós-colonial – os personagens são curiosos, o cara recebeu um Nobel… mas Naipaul ainda não me ganhou. Ainda não consigo desfrutar totalmente da história e, sempre que salto de um parágrafo ao outro, penso: poxa, ele podia ter contado isso de forma mais misteriosa, mais elaborada, mais cheia de detalhes, mais Woolfiana. Até agora, o grande mérito do livro, para mim, é meter-me num contexto histórico-político-social que, de outro modo, eu talvez não conheceria.

Ainda estou esperando pelas pequenas genialidades de Camus nos pequenos parágrafos de Naipaul. São cenas dos próximos capítulos.

Sobre morar (fora)

Estou aqui há um ano e meio. Essa é a primeira vez que escrevo um post desde algo que não seja um computador de mesa. Me rendi ao tablet que ganhei no trabalho. Foram muitas rendições em todo esse tempo de Uruguai. O frio, o estranhamento, o sedentarismo, o “trabalhar em qualquer coisa”, a má alimentação. A saudade de casa. A vontade de voltar pra casa. O desejo de deixar de morar fora. Voltar a morar dentro. E morar em outro fora, outra vez. Rendições, todas elas. Ser cidadão do mundo cansa. Carregar seu próprio mundo na mochila, cansa mais ainda. Sentir falta cansa muitíssimo. Cansar de cansar-se por tudo isso é o mais cansativo de tudo.

A ilusão da vida dinâmica, da não-rotina, do brinde ao novo, do desapego e da temporalidade dos atos é uma… ilusão! Dura o que tem que durar. É linda. É estimulante. É a ketamina das ilusões. Mas cansa. Perde a graça. Perde o novo. Perde-se por aí, pelas horas rígidas dos empregos, pelas contas acumuladas, pelos quilos ganhos. Perde-se. E o que fica, depois de tantas perdas, é a certeza de que morar, dentro ou fora, fode com tudo. O segredo é morar não morando. Estar não estando. Não agendar, não estipular, não calcular, não prever, não usar o whatsapp. Fugir do instantâneo – ou ao menos reduzir o seu uso – e tentar plasmar os exageros. Quando penso em minha viagem, lembro com mais carinho daqueles momentos de não contenção. O resto é o resto. E restos são os mesmos aqui, em Fortaleza e em qualquer lugar do mundo.