Tosse de Cachorro

Junho de dois mil e dezessete

O mês em que me desiludi uma vez mais com Murakami (Kafka à beira-mar) e me deslumbrei com Kawabata (A casa das belas adormecidas).

Em que mergulhei ainda mais no oriente com The wailing, um dos melhores filmes de horror dos últimos anos, e me emocionei com I am not your negro, apesar dos pesares.

O mês que me apresentou Mr. Robot e que encerrou The night manager, duas séries boas demais para permanecerem esquecidas.

O último mês do Café Clube de Leitura do jornal O Povo, coordenado por mim e pela Marina Solon, com um debate divertido sobre Nove noites, a melhor coisa que Bernardo Carvalho já escreveu.

No último dia do mês, uma surpresa. Finalmente o Spotify disponibilizou toda a discografia do Beach House, inclusive um disco de raros e b-sides lançado há um mês.

Chegados #1

As garotas – Emma Cline (Ed. Intrínseca) aqui
Fiquei sabendo desse livro quando foi lançado pela espanhola Anagrama – que é meu modelo ideal de editora em termos de catálogo e identidade gráfica definida (salvem as identidades definidas no mercado editorial!). Li a sinopse, gostei. Se passa no contexto dos anos de contracultura norte-americana. Hippies, sexo, amor livre, Charles Manson. Tinha colocado na minha lista de leituras. Também me chamou atenção a pouca idade da autora. É de 89, como eu. Gostei do projeto gráfico, capa dura, jacket. Na quarta capa tem selo de qualidade da Jennifer Egan, do A visita cruel do tempo.

As coisas que perdemos no fogo – Mariana Enriquez (Ed. Intrínseca) aqui
Fiquei sabendo desse livro ontem. Em conversa com o Joca Terron sobre autores latino-americanos para uma festa literária, ele me recomendou a Mariana Enriquez e esse As coisas que perdemos no fogo. Aparentemente, são contos de um urbano meio fantástico. Gostei da sinopse. Já estava precisando descobrir novos autores do continente. Na quarta capa, o Dave Eggers (O círculo) a compara com Bolaño. Lembrei da última recomendação de Bolaño (recomendação própria, e não comparação alheia). Lina Meruane, a chilena de Sangue no olho. Livraço.

Barra de temperatura

A luz através das gotas de chuva condensadas no vidro janela. A luz refletida no asfalto molhado de chuva. O melhor da chuva vem depois dela. A fotografia fica mais à vontade nessas horas. Atrás da janela, tento oscilar o foco, do prédio além para a gota estacionada. Da gota estacionada para o prédio além. O meio termo é um bokeh mal engembrado. Corro a barra da temperatura para a esquerda. Frios tons. Para a direita. Quente. Frio. O azul combina com a noite chuvosa. Abro as portas para o vento circular. Em Fortaleza, frio só o do Photoshop.

Carnaval pré-apocalíptico

Li o novo do Galera, Meia-Noite e Vinte, na mais desconfortável cadeira de hospital que alguém já pôde criar. É um bom livro, mas encerrei sua leitura com a sensação de que não teria desfrutado tanto de sua história e construção se não estivesse naquelas circunstâncias. Minha vó veio às pressas do interior, respirando por um balão de oxigênio em uma ambulância sem refrigeração em pleno domingo de carnaval. Seis horas de viagem até Fortaleza. Os quartos no hospital, esgotados. Na enfermaria da emergência, uma cama vazia. Estive ao seu lado até as sete da manhã de hoje, quando minha irmã assumiu meu posto. Ao lado da cama, uma cadeira. Uma cadeira, e não uma poltrona. Uma cadeira de plástico, sem apoio para os braços. Cama número quatro, ao lado do banheiro. O banheiro da enfermaria da emergência. Da emergência.

Virei a madrugada lendo e terminando Meia-Noite e Vinte e começando A Trilogia de Nova York, do Auster. Dormi das quatro às seis. Meu corpo não aguentou. Enquanto mantive os olhos abertos, o Galera me fisgou com a turbulência de seus personagens (apesar de uma ou outra derrapada que reforça estereótipos que não precisam ser reforçados) e com as reflexões de uma geração que por pouco não foi a minha. Nasci nos oitenta, descobri a internet nos dois mil, quando o bug do milênio não era mais que uma piada. Galera sabe construir personagens que geram graus variados de uma empatia que nunca deixa de existir. Me agradam seus homens e mulheres. Quis saber mais sobre eles ao fim do livro. Foram poucas as páginas.

E os de Meia-Noite e Vinte, sobretudo, geram identificação imediata para aqueles dos setenta-oitenta-e-talvez-noventa que de alguma forma viram ruir o projeto (a utopia?) político-social que se anunciava com a popularização da internet. Em uma entrevista ao Zero Hora, Galera, classificou seu texto como pré-apocalíptico. Parece adequado. A sensação de que uma hecatombe está prestes a acontecer não se dissipa ao fim das páginas. Entre o dito e o não dito dos personagens, sobra uma quase profecia de caos e lama. E caos, lama, bipes eletrônicos, aparelhos de pressão, antibióticos na veia, veias inchadas e cheiro de merda são a única realidade de alguém obrigado a virar a noite na pior cadeira de hospital já desenhada.

(A propósito, continuo tendo o Galera em alta conta na safra de autores contemporâneos nacionais. Minha ordem de preferências fica Até o Dia em que o Cão Morreu > Barba Ensopada > Mãos de Cavalo > Meia-Noite e Vinte > Cordilheira)

Janeiro de dois mil e dezessete

Um Outro Amor, a segunda parte da série Minha Luta, do Knausgard, não é tão bom quanto o primeiro, mas continua firme. Devo seguir para os próximos volumes.

Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?, livraço de ficção-científica, meu primeiro K. Dick. O contexto filosófico-religioso, que aparentemente foi deixado de fora do filme (que ainda não vi) é genial.

Outra ficção-cientifica – cada vez leio mais o gênero -, O Homem Invisível, do H. G. Wells. Divertida. O ano promete ser cheio de reedições do autor, agora que sua obra entrou em domínio público.

Dawn of the Planet of the Apes reafirma meu sentimento pela série Planeta dos Macacos, minha favorita do cinema.

Falando em Oscar, que em 2017 parece ter resgatado a tradição de ter bons filmes entre os indicados. Moonlight, A ChegadaManchester by the Sea são cinema puro. Impossível escolher um favorito. La La Land é bonito mas decepciona. Expectativas são uma droga.

Fazia tempo que eu não colocava Flaming Lips para tocar. Oczy Mlody, lançado agora, é psicodelia da melhor qualidade e um dos melhores discos da banda. Miley Cyrus foi uma excelente aquisição.

 

Szymborska #2

Tudo meu, nenhuma posse,
nenhuma posse para a lembrança
mas meu enquanto olho.

Szymborska

Relógio, aflore do rio
e permita que te segure na mão,
para que eu possa dizer:
Você finge ser a hora.

Um & outro

“Em todo uniformizado não vê uma pessoa, mas duas, pelo menos duas e que se opõem, uma que promete segurança e outra que rouba e violenta à mão armada, uma que vigia as fronteiras da pátria e outra que saqueia e extermina com distintivo no peito, uma que abençoa e reconforta e outra que se faz masturbar por coroinhas no confessionário, uma que sorri e opera a caixa registradora com profissionalismo e outra que soma produtos que ninguém comprou, e dessas duas há uma, a secreta, a que se oculta atrás do verde-oliva, da insígnia de grau, do cabeção sacerdotal, até mesmo do lenço e do paletó de tweed e das botas de montaria do oligarca torturado, que, provavelmente ausentes de um catálogo oficial de uniformes, ocuparia página dupla central em qualquer um dedicado aos usos e costumes da classe alta argentina, que é a pessoa que ele teme, não tanto pelo que lhe possa fazer, porque, já alertado pelo signo do uniforme, sabe de antemão o ás trapaceiro que esconde na manga e como evitá-lo, quanto porque em algum momento, mais cedo ou mais tarde, esse duplo clandestino irá vê-lo, reconhecê-lo, tocá-lo no ombro, e confiará a ele, só a ele, o que lhe arde no peito.”

Alan Pauls, História do Pranto, pag. 45

Sobre os italianos

Fellini é um dos meus diretores favoritos. Noites de Cabíria e Amarcord estão na minha lista de filmes da vida. Ginger & Fred e Ensaio de Orquestra são deliciosos. 8 1/2, A Doce Vida e A Estrada, embora não tenham a mesma simplicidade extravagante (felliniana, diriam) dos outros dois, também são excelentes. Terminei meu domingo com Roma, de 1972, e de agora em diante vou lembrar da capital italiana como: a) a cidade das pensões superlotadas, com crianças gasguitas, mulheres gordas prostradas na cama e asiáticos que cozinham no próprio dormitório; b) a cidade dos shows de calouro mais caóticos que podem existir; c) a cidade das putas, de todos os tipos, tamanhos e sorrisos; d) a cidade dos desfiles de moda eclesiástica.

Nova-velha casa

Passar dois anos longe de casa é passar a ter uma nova casa. E voltar pra velha casa é sair de casa uma vez mais.

É o que aprendi nesse quase um mês em que voltei ao Brasil.

Agora, sinto pelo Uruguai a mesma saudade que senti quando deixei Fortaleza no início de 2013. Saudade dos amigos uruguaios – a família uruguaia, afinal – de minha casa, dos meus móveis, dos meus livros, minhas roupas de frio, meus trajetos, minha rotina, meus horários. Ainda não me habituei ao velho-novo estilo de vida daqui, e até as horas de sono estão mais ou menos atribuladas, porque minha velha-nova cama não tem mais a forma do meu corpo, não é mais tão aconchegante. Não me habituei ao trânsito caótico, aos engarrafamentos que te prendem por horas, ao medo de sair de casa, aos cuidados constantes com a segurança, ao calor que te faz suar ao mínimo movimento.

“No Uruguai não é assim” é a frase que mais repito. Tanto que imagino ser uma chatice para os que a escutam com essa frequência exagerada. E me dizem “ah, mas você já saiu de casa uma vez, já sabe como é”. Mas agora, queridos amigos, há um elemento agravante: quando sai de casa em 2013, estava indo a um país novo, começar do zero. Não conhecia ninguém e ninguém me conhecia em Montevidéu. Nas raras ocasiões em que isso acontece, quando você tem a oportunidade de chegar a um lugar desconhecido, como um forasteiro, considere-se um cara de sorte. Você vai ter a chance de construir sua vida como você bem entender, sem os vícios, prejuízos e preconceitos da vida anterior. É a chance de viver sem as máscaras impostas pelas convenções e pela família, de ultrapassar seus limites – ou de ousar lutar para ultrapassá-los, de aprender a conviver com seus erros – afinal, você não está sob a mira de ninguém que vá apontá-los.

Sair da nova-casa e voltar pra velha-nova-casa, por outro lado, é ter a certeza de que tudo o que você lutou para abandonar está a sua espera, e que você precisa se adequar outra vez a essas normas se não quiser ser apontado como rebelde ou descompensado, se não quiser um “eu não te reconheço mais” dito em tom acusatório.

O maior aprendizado, talvez, seja justamente poder reconhecer que a pessoa que me tornei é melhor que a pessoa que eu era antes de sair de casa pela primeira vez. E poder seguir sendo quem eu escolhi ser, porque é questão de tempo até que a cama tenha outra vez a forma do meu novo corpo.